Por Jonatha Carvalho
São 23H30. Caio na estrada. Um frio que alfineta
os ossos me persegue até o amanhecer. Encontro uma centena de ônibus cruzando a rodovia Presidente Dutra, em São Paulo. Dentro deles, com as luzes acesas, vejo todas as idades sorrindo, cantando e se abraçando, numa felicidade rara nos dias de hoje.
Ao chegar à cidade de Aparecida – depois de quase três horas e meia de viagem – há uma multidão de lençóis coloridos cobrindo cada metro quadrado em frente à Basílica. Entre vários destes lençóis estão bandeiras da Bolívia, Argentina, Uruguai, Paraguai, Peru e até uma de Israel.
Não há, em ponto algum, entre os 150 mil romeiros, brigas ou discussões, que são comuns em aglomerações desta envergadura. Dezenas de centenas de militares vindos de unidades como a Brigada de Infantaria Pára-quedista (a elite do Exército brasileiro) patrulham cada canto do evento. Agentes e atiradores da Polícia Federal e do Exército observam de cima de torres, da igreja, e de pontos estratégicos cada passo da multidão.
Entre músicas e hinos religiosos é fácil encontrar, ajoelhados, católicos de mãos unidas, olhos fechados e lágrimas no rosto, que brilham às luzes dos holofotes até o amanhecer.
Helicópteros de autoridades cortam o céu a cada minuto. Crianças apontam para cima e sorriem. Alguns dos fotógrafos começam a ocupar lugares na multidão, enquanto outros profissionais preferem o conforto no alto das muralhas da Basílica.
Nos telões surgem os carros da Polícia Federal. A multidão entra em êxtase. Mesmo tendo feito várias fotografias desde que cheguei, sabia que aquela seria a mais difícil. Não pela distância – que chegou a menos de três metros – mas pelas máquinas que se digladiavam por um espaço no ar. Mais de trinta fotos, aproveitei três. Após a passagem do papa muitos choram, sorrindo.
A missa tem início. Cada palavra do pontíficie recebe atenção como se fosse a última. O silêncio entre o público só é rompido algumas vezes, com pedidos, educados, para que faixas e guarda-sóis – o sol estava a pino – sejam abaixadas, e quem estivesse atrás pudesse enxergar aquele ponto branco e dourado no altar.
A fé, apenas um conceito para alguns, é expressa de tal forma que emociona até Joseph Ratzinger. Mesmo não sendo católico, foi impossível para o repórter que vos escreve ficar indiferente a este acontecimento. Talvez não pela figura do religioso ali presente, mas pela esperança e alegria que para muitos ele representa.
Os ônibus saem da cidade. Músicas e sorrisos voltam para casa.
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