Mentiras que convencem

Por Renato Silvestre

Já totalmente imersos nesse clima de chuva de santinhos e da proliferação de possíveis milagres eleitorais, a campanha, agora em rede nacional de rádio e televisão, esquentou de vez. Na busca pelo voto, para muitos, vale tudo, principalmente para aqueles velhos conhecidos de sempre.

Os mesmos jingles, o mesmo versinho chiclete e o pior, as mesmas caras mal lavadas que vemos em cada período eleitoral. Há desde os aventureiros, aos sonhadores sem recursos, até finalmente chegarmos às velhas e toscas raposas felpudas que dominam e controlam o cenário político brasileiro há anos. É sobre esse tipo que quero falar.

A sociedade parece sofrer, tal qual é retratado em Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, de uma síndrome coletiva de ausência de um dos seus principais sentidos. Sim, porque, não há outra explicação palpável para olhar e não ver. As velhas marcas e sobrenomes de sempre nada fazem, no entanto, permanecem acampados nos legislativos e executivos do País.  

Ver os resultados das pesquisas de intenção de votos tornou-se uma tortura. Não porque X ou Y estejam liderando ou na rabeira do subconsciente da sociedade, mas sim, porque, percebo que o eleitorado, em sua maioria, trata a eleição de modo absurdamente irresponsável. O eleitor olha para os candidatos como marcas de roupas, bebidas ou carros. É preferível votar e ter mais do mesmo, “porque esse eu já conheço”, do que ousar e pesquisar de fato em busca do candidato mais correto e com melhor potencial.

 O fato é triste e inegável, grande parte de nós vamos às urnas como verdadeiras vaquinhas de presépio. Os velhos números de sempre, em geral, popularizados por meio de grandes máquinas de arrecadação de verbas por meios no mínimo duvidosos, permanecem e investem a cada dois anos como nunca. E tome campanha que suja as ruas e apesar de oferecer salários, ainda que ridículos, mobiliza uma grande massa não de cabeças pensantes ou militantes na essência da palavra, mas sim, de desesperados por uma chance pequena de conseguir se sustentar durante esse período. Estranho paradigma é esse, não?

Pobre da sociedade que caminha para urna com a sensação dilacerante do voto obrigatório. Quando um programa ou compromisso torna-se chato ou desinteressante resta apenas a sensação torturante de ter que cumprir a tal obrigação. O comprometimento desaparece, os números e as cores de sempre rondam a cabeça e em segundos está feito. Tarde demais, não há volta, nada vai mudar. A fome coletiva está saciada, ainda que seja apenas com a velha marca de pão e com um belo copo de água, de torneira.

Submerso

Por Jonatha Carvalho

Foto: Jonatha Carvalho

Foto: Jonatha Carvalho

Sobram poesias quando debruço meu olhar sobre ti
Mas todas elas desaparecem quando tu me olhas
E, no seu sorriso, me desmonta
Quando percebo que fui abatido, sem chance de revidar,
me sinto mergulhado sem sufocar,
pois já estou respirando você

Olhos fechados

Por Jonatha Carvalho

 

Rebeca Puertas

Foto: Rebeca Puertas

 

 

No toque dos seus lábios,

encontro o sabor da tempestade,
o perfume do amanhecer,
o som do firmamento

Me desencontro entre sensações
Me desconstruo como Derrida
Me desfaço como um sonho
Me acho acordado, sem saber

Interdependência

Foto Jonatha Carvalho

Foto Jonatha Carvalho

 

Por Jonatha Carvalho

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É fato que a bandeira da proteção ao meio ambiente só existe em razão dos atuais – e futuros – problemas que podem afligir a “evoluída” raça humana. Se a existência do homem não corresse perigo, as questões ambientais seriam levadas tão a sério pela mídia como a luta pela preservação da perereca tropical Phyllomedusa ayeaye.

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Não obstante, torna-se necessário proporcionar um panorama mais amplo à população no que tange a reciclagem de materiais e a consciência ambiental. Não só aquela do carro a álcool – que só faz o atual sucesso em função dos custos menores –, mas a que produz resultados mais amplos, como a reciclagem de materiais, a não degradação dos rios e nascentes e o controle de emissão de poluentes.

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Infelizmente, a propagação destas iniciativas em larga escala depende também de ações governamentais precisas, com atuação junto à sociedade e punições severas para os contraventores. O cidadão ainda enxerga como distante o desmatamento da Floresta Amazônica, que sempre ocupou lugar nos jornais, mas cuja culpa é atribuída, na maioria das vezes, a alguns aproveitadores e, dificilmente, à ausência do Estado.

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O Brasil traz consigo o encargo de proteger a imensa biodiversidade que ainda lhe sobrou. Políticas de planejamento urbano e crescimento sustentável da economia sem desprezar o fator ambiental ainda engatinham na lama da corrupção e do jogo de interesses políticos. O simples ato de não jogar lixo em rios e vias públicas já é um grande avanço, mesmo que a abrangência se restrinja ao seu bairro.

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Em época de eleição, vale ressaltar que um dos cânceres da sociedade brasileira é acreditar que os problemas só podem ser resolvidos de cima para baixo. Assim como um cão com sede, poderá só dar conta da gravidade da situação quando não houver mais água no pote nem dono por perto.

Fila de banco e um velho e bom malaco

Por Renato Silvestre

Fila de banco é sempre uma situação interessante para se analisar aspectos da personalidade humana. Há desde àqueles que simplesmente “não estão nem aí”, até os tradicionais críticos, não que esses estejam errados, pois permanecer vegetando em uma fila é no mínimo estressante.
Em um desses dias onde teria que cumprir minha procissão rumo à “glória” dos gastos mensais, um sujeito que estava a umas cinco posições a frente chamou-me a atenção.
O nome dele? Não sei. No entanto, em meio a conversas com um cidadão que lhe parecia ser íntimo (mesmo que os dois só houvessem se conhecido a uns dez minutos atrás), este senhor identificou-se como sendo um “Malaco Véio da Bacia do Macuco” (bairro de Santos).
Vou tentar explicar.
Como sempre a conversa nestas situações inicia-se por meio das velhas e já conhecidas reclamações quanto aos serviços prestados pelos bancos, que por outro lado, se já são tão conhecidas assim, está na hora de alguém resolver o problema.
Ficar parado em um fila, seguindo o fluxo do “matadouro financeiro”, pode ser entediante, mas algumas reflexões sempre acabam acontecendo.
O nosso personagem, aquele da Bacia do Macuco, estava chocado com o caso do menino João Hélio, não é por menos, afinal, quem em sã consciência não ficou impressionado com a brutalidade deste crime. Ele dizia que isso tudo era uma vergonha para o país e que a lei aqui não funcionava. Sua gesticulação e suas argumentações conseguiam realmente chamar a atenção, não pelo tom de voz, mas pela habilidade com o vocabulário utilizado.
O que era praticamente um monólogo, de uma hora para outra tornou-se discussão grupal. A esta altura, seis ou sete pessoas falavam sobre o assunto. Todas indignadas complementavam a história do menino com detalhes que tinham visto com “exclusividade” na televisão ou que haviam escutado de seus amigos.
Interessante como pseudo-soluções para o caso surgiam em meio aquela batalha pela fala da vez. Um tumulto de idéias geniais incansavelmente pregadas pelos grandes grupos de comunicação e/ou os famosos formadores de opinião.
Pena de morte, redução da maioridade penal, o aumento da criminalidade e a ausência da família, tudo levantado em rápidas e secas opiniões que nem ao menos eram analisadas, pois eram sobrepostas em um emaranhado de outras tantas do mesmo tipo.
Nesta linha, a conversa iria até o final do expediente bancário, até porque o ritmo que a fila andava era menor que os “passos de formiga e sem vontade”, cantados por Lulu Santos.
Nosso amigo do Macuco resolveu mudar a conversa e iniciou a compartilhar com todos uma história particular. Falava a respeito de um sobrinho, que “desde pequeno já não era flor que se cheire”, citando uma vez que o visitou.
Sua filha, ainda pequena, brincava na sala quando começou a ter séries de ataque de choro, ele desconfiado reparou que o sobrinho pisava na mão da menina logo que os adultos da casa se descuidavam. Para dar uma lição no garoto, esperou sorrateiramente até o instante de sua partida. Percebendo o momento correto, rebateu os pisões que sua filha foi vítima, com um ainda pior.
A dor no choro do sobrinho não foi pior que o sentimento vivido por ele alguns anos depois. A sua tentativa de colocar o garoto nos eixos, por meio da pisada e da explicação deste ato, não surtiram efeito e o que ele temia aconteceu. Aquela simples flor mostrou-se revestida de veneno e espinhos. Hoje está na cadeia.
O ente querido de nosso personagem foi apenas um exemplo utilizado por ele para sustentar sua tese de que “a ruindade já está na pessoa desde que ela é criança” e que por isso não haveria mais chances de melhora. Esta é, no entanto, uma ideologia a ser discutida, pois será que o criminoso, o é desta forma por culpa da genética? Ou fatores como a não presença de uma família, a falta de orientação, a cultura do consumismo exacerbado e a indisposição dos serviços públicos estatais podem ser um ponto chave na formação do caráter humano?
A revolta de todos, mesmo que em uma fila de banco, vai além da simples indignação diária com a sociedade, repleta de ódio, miséria e violência. Mostra que a população não é boba, sabe o que quer. Por outro lado, a ausência de um líder que seja a ponte entre a idéia coletiva e o governo faz a massa calar.
Embriagados pela falta de liderança, as pessoas, inquietas, esperam somente um breve momento de discussão para que exponham suas idéias. Para isto, não há hora, nem lugar e qualquer cidadão como nosso “Véio Malaco da Bacia do Macuco”, pode ser o líder.

*texto originalmente publicado em 11/03/2007, logo após a morte 

do menino João Hélio, que foi brutalmente arrastado por vários quarteirões,

preso a um carro que era conduzido por menores de idade

Descaso coletivo

Por Jonatha Carvalho

Na mesma velocidade em que panfletos e santinhos vão sumindo das ruas – e a chuva tem contribuído razoavelmente para isso –, a memória de muitos que foram às urnas nestas eleições se perde entre números, porcentagens e a novela das oito. Como é de praxe, o primeiro dia do próximo ano marca o início de uma nova gestão nos municípios, contudo sinaliza igualmente para mais quatro anos de descaso não [só] dos eleitos, mas, principalmente, dos representados.

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O exercício da democracia começa na participação do cidadão comum nas decisões que envolvam os problemas de sua rua, bairro e município, e reclamar da falta de vagas na creche ou do trânsito infernal dos fins de tarde somente para o espelho é um grito debaixo d’água. Por mais que o vereador ou prefeito seja sempre sorrisos ao visitar uma obra medíocre perto de sua casa, só quem sente o calor de verão no ônibus lotado e a gélida arma na cabeça no sábado à noite sabe em que cidade mora e de que doenças ela sofre.

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Como parte de nossos representantes pensa, infelizmente, somente a cada quatro anos – em um exercício secular que não possibilita a formação de bases sólidas às instituições –, estimular neles a lembrança de que existe uma sociedade por detrás dos carimbos e assinaturas nos gabinetes da prefeitura é dever do contribuinte. E, assim como no combate ao câncer da corrupção, vale a máxima de que “para que o mal predomine, basta que os bons não façam nada”.

 

Por quê dois Jogos?

Por Renato Silvestre

Pouca gente percebeu ou comenta, mas as Olimpíadas continuam.

Talvez não com todo o envolvimento midiático e financeiro de grandes patrocinadores, mas os jogos paraolímpicos são mais do que uma competição.

A superação de limites e de por vezes dramas pessoais, tornam-se lágrimas e suor de vencedores.
Não há derrotados nas paraolimpíadas.

É fácil admirar Phleps ou Bolt, engrandecidos pelo marketing esportivo e pelo dinheiro de grandes centros de treinamentos.

Mas, me pergunto afinal, porquê os grandes atletas de cadeiras de roda, olhos vendados e percepção sobre-humana são considerados tão diferentes e esquecidos das grades de programação das TVs?

Ainda há muito preconceito no Brasil com relação aos portadores de necessidades especiais. Ainda há dificuldades no cotidiano deles.

Ônibus não adaptados, calçadas esburacadas e sem sinalizações específicas e um olhar preconceituoso e de diferença de muitos.
Na busca por um mundo melhor acredito no poder do esporte e vejo a Olimpíada – ainda que tenha perdido muito dos valores pensados por Barão de Cobertin – como uma porta para a busca por igualdade nas relações humanas.

Penso o porquê da separação? Por quê dois jogos olimpícos?

Imagine como seria emocionante vermos tudo acontecer ao mesmo tempo:

Em uma bela tarde Phelps vai para a piscina e ganha, minutos depois Daniel Dias e Clodoaldo Silva também fazem bonito nas águas mágicas de um Cubo d’Água. A torcida vibra no estádio olímpico, Bolt ganha e dança mais uma vez…em pouco tempo Ádria dos Santos passa como um raio para conquistar mais uma medalha para o Brasil e mostrar para o mundo que no final todos somos vitoriosos, apesar de reclamarmos tanto de nossas condições físicas, sociais, psicológicos ou financeiras.

É claro que há questões técnicas, seja dos locais de competição, seja dos aparelhos envolvidos que dificultariam este casamento, mas, poderíamos sim, ver ter este show amarrado em único pilar.

O pilar do sonho da igualdade e da valorização das pessoas, das idéias, do suor e do amor pelo esporte, do amor antes de mais nada, pela vida.